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Notícias / Brasil

06.05.2026 às 05:58

O líder na era da liderança aumentada

Por Keila Dier

Keila Dier Dalila Magarian

A notícia passou quase despercebida entre os ciclos acelerados do noticiário de tecnologia, mas merece parar e ser olhada com calma. A Meta está desenvolvendo uma versão em inteligência artificial do próprio Mark Zuckerberg, treinada com seus trejeitos, tom de voz e visão estratégica, com o objetivo de interagir com os quase 79 mil funcionários da empresa. O CEO, literalmente, em escala.

Não é ficção científica. É abril de 2026.

E o que esse movimento revela vai muito além de uma curiosidade sobre o Vale do Silício. Ele aponta para uma reconfiguração profunda do que entendemos por liderança e nenhuma organização está imune a essa conversa.

Durante décadas, a liderança foi tratada como um recurso escasso por definição. Um CEO tem vinte e quatro horas. Uma agenda limitada. Uma capacidade finita de estar presente, de comunicar, de inspirar. A hierarquia existia, em parte, para compensar essa limitação. Cada camada de gestão era uma tentativa de distribuir a influência do topo.

A IA muda esse pressuposto de forma radical.

O projeto da Meta vai além de uma simples réplica digital: a IA está sendo treinada com os pensamentos de Zuckerberg sobre estratégia, com o objetivo de conversar com funcionários sem ocupar o tempo do executivo ou quando ele simplesmente não quiser fazer isso pessoalmente. A presença executiva, portanto, deixa de ser um recurso escasso. Passa a ser escalável.

Isso é uma ruptura. E como toda ruptura, traz ao mesmo tempo uma promessa e um risco enorme.

Tenho usado o termo "liderança aumentada" para descrever esse novo modelo que está emergindo e que vai muito além do caso Zuckerberg. A ideia central é simples: o líder humano passa a atuar em parceria com sistemas de inteligência artificial que amplificam seu alcance, sua consistência e sua velocidade de resposta.

Na prática, isso significa que comunicação pode ser automatizada, presença pode ser distribuída e decisões de baixa complexidade delegadas a sistemas treinados com os valores e critérios do próprio líder.

Nesse modelo, o líder vira interface. Não no sentido de se tornar menos humano, e sim de que sua essência precisa ser suficientemente clara, coerente e articulada para poder ser transmitida. Tanto para ser ensinada a um sistema como para sobreviver à sua própria ausência. É aqui que a maioria dos líderes possivelmente irá travar.

Para que a liderança seja aumentada, ela precisa primeiro ser legível. Um líder cujos valores são vagos, cujas decisões são inconsistentes e cujo estilo muda conforme o vento não pode ser replicado — nem por IA, nem por um time bem formado, nem por uma cultura organizacional sólida. Eu chamo a isso de líderes opacos, pois o problema é causado pela falta de transparência.

A IA de Zuckerberg funciona porque o executivo passou anos construindo uma presença pública densa: posicionamentos claros, princípios declarados, comunicação constante e verificável. O próprio CEO participa ativamente do treinamento do avatar, fornecendo seus maneirismos, tom de voz e visões estratégicas. Ele consegue ensinar quem é porque sabe quem é.

A pergunta que esse movimento coloca para cada líder é incômoda: se você precisasse treinar um sistema com sua forma de pensar e decidir, o que ele aprenderia?

Se a resposta for "depende do dia", há um problema de identidade de liderança antes mesmo de qualquer problema tecnológico.

Dito isso, a liderança aumentada não é liderança substituída. E é importante não confundir as duas coisas.

A IA pode distribuir presença. Não pode criar confiança real. Pode escalar comunicação. Não pode substituir o momento em que um líder olha nos olhos de alguém e diz: eu acredito em você. Pode processar dados para apoiar decisões. Não pode assumir a responsabilidade ética por elas.

No meu livro Seja inspiração, desenvolvo a ideia de que liderar com impacto real exige múltiplas inteligências ativas e integradas. Nenhuma delas é replicável em sua totalidade por um sistema de IA porque todas envolvem presença, vulnerabilidade e escolha consciente. O que a IA pode fazer é liberar o líder humano das camadas operacionais e repetitivas para que ele se dedique justamente ao que é insubstituível: conexão genuína, tomada de decisão em alta complexidade e construção de cultura.

Essa é a promessa real da liderança aumentada. Não o líder que desaparece, mas aquele que aparece melhor, onde mais importa.

Os líderes que entenderem isso e que tiverem a clareza interna necessária para trabalhar com esse novo paradigma vão definir o padrão das organizações da próxima década. Os que esperarem para entender, vão correr atrás.

 

Keila Dier é especialista em liderança, palestrante internacional, mentora e autora do livro Seja inspiração, obra que explora o desenvolvimento de múltiplas inteligências como base para uma liderança de impacto real.


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